A direção para mulheres era uma ousadia nos anos 70. Ainda assim, esposas só conseguiriam sua carteira de habilitação depois de devidamente autorizadas pelos maridos. Quem vive hoje num dia-a-dia de modelos acessíveis a financiamentos em até 80 meses sequer imagina outros tipos de dificuldades como motorista, seja homem ou mulher.
Mas a quantidade de autos hoje é tamanha que nem o governo consegue administrar o não pagamento de impostos do que chama de frota sucata, com mais de dez anos. Até nas periferias e interiores mais longínquos do país, um carro está tomando um lugar ao lado das casinhas simples, substituindo e ocupando bem mais espaço e orgulho do que aquela bicicleta “leva tudo”, desde mulher e filhos até compras e botijão de gás na garupa.
Em estradinhas de terra ou vicinais, onde antes elas iriam dirigir escondido para aprender, ninguém se espanta com um carro dirigido por mulheres. Perigo mesmo são os homens ligeira e interioranamente embreagados pilotando em alta velocidade seu rally particular. Voltando as relações de poder mediadas pelo automóvel, e voltando no tempo, revivo uma experiência da adolescência, quando numa das primeiras saídas de minha mãe ao volante ela “bateu no farol!”. Só essa expressão gerava taquicardia em todos no grupo de amigos e familiares onde o assunto fosse comentado. E aconteceu!
Eu tinha uns 16 anos, mas já conhecia os fundamentos de ligar, soltar o freio de mão e liberar o carro para andar depois de engatado. Orientado pelas respostas de minhas perguntas insistentes enquanto meu pai dirigia, e por sua paciência nos raros momentos de experimentar o volante em movimento, aprendi a deslocar um Aero Willys, 1966, azul claro com interior vermelho! Eu também tinha a responsabilidade de ligar o motor do carrão nos dias de semana, para não descarregar a bateria. Portanto estava apto por entender que ele não deveria estar engatado.
O curioso é que saber tudo isso daquele carro só serviria para dirigir ele próprio. Sim, era um modelo de três marchas no volante, com freio de mão abaixo do painel. Complicadíssimo para motoristas da linha Volkswagen, o auto-escola do brasileiro, com freio e câmbio no assoalho.
Foi exatamente aí que um pequeno declive, na linha da faixa de pedestres logo abaixo de um farol vermelho, testou toda capacidade da novíssima carteira de habilitação da minha mãe. Aflição mútua, e o terror previsível se confirmou. Entre o tempo de soltar o freio de mão e a confirmação do engate da primeira marcha, um movimento em L para baixo, o carro morreu. Até aí nada que um bom e assustado pisão no freio não resolvesse.
O fato é que nesse breve espaço de tempo, os poucos metros que as rodas do Aero Willys desceram na rua fez seu grosso e cromado pára-choque traseiro afundar a lateral de um novíssimo modelo Ford Maverick vinho, exatamente na parte mais frágil do porta-malas. Só me lembro na expressão do homem de terno e gravata, outra ameaça, decidido ao volante do Maverick enquanto passava do meu lado da janela. Isso antes, durante e depois da batida.
Trânsito parado, curiosos se aglomerando e todos aguardando soluções quando, diante da declaração de minha mãe que não poderia resolver nada, mas só seu marido, mais uma revelação me ensinaria muito sobre a sociedade: era um advogado!
Ameaçador, tratou de deixar claro que, tal “incompetência e prejuízos” não eram surpresa de uma situação onde se misturavam um carro velho e mulher ao volante. Levou nomes, placa, telefones e endereço. A expedição até a casa da minha tia acabou na hora. O incidente só foi comunicado mais tarde por telefone (sim, não existiam celulares) e conversado à noite, em casa. Meu pai, calmíssimo, só disse, “manda ele falar comigo”. Nunca aconteceu nada!
PS: Só por curiosidade. O carro é igualzinho ao do episódio com o então irmão do presidente Castello Branco, descrito pelo jornalista Elio Gaspari:
“Em 1966 o presidente Castello Branco (cearense) leu nos jornais que seu irmão, funcionário e com cargo na Receita Federal, ganhara um carro Aero-Willys, agradecimento dos colegas funcionários pela ajuda que dera na lei que organizava a carreira. O presidente telefonou mandando ele devolver o carro. O irmão argumentou que se devolvesse ficava desmoralizado em seu cargo. O presidente Castelo Branco interrompeu-o:
- "Meu irmão, afastado do cargo você já está. Estou decidindo agora se você vai preso ou não".
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