Paquerar ao volante é uma espécie de esporte desde a década de 20, quando poucos e caríssimos calhambeques importados faziam o vai-e-volta na Avenida Paulista, ainda sem asfalto e só com suas primeiras mansões, no chamado corso. Uma réplica, como de todo o resto, dos hábitos dos europeus, que faziam o mesmo desde as carruagens.
Muitas evoluções e revoluções dos costumes depois, a prática nunca saiu de moda, e até ganhou a ajuda dos congestionamentos, quando todo mundo olha para os lados, sabendo dispor de muito tempo, para corresponder ao milagre que vai parar exatamente ao seu lado. E também sofisticações como a possibilidade de, ousada e criativamente, lançar seu próprio celular dentro do carro ao lado para confessar e raptar a atenção do/da pretendente. Isso se vencidas as privacidades da película escura dos vidros ou a limitação de abertura das janelas dos blindados, já as primeiras razões para festejar sonhos de companhia.
Mas atenção, paquerar ao volante, como todo flerte, dispõe de ilimitadas possibilidades e prejuízos. Para começar no tradicional politicamente correto: gera desatenção, não é o lugar, prejudica o trânsito (precisa até avisar que isso não é piada!) e aumenta o consumo de combustível, tempo, libido e ansiedade. Mas precisa, continua e continuará a ser feito, exatamente como o automóvel é uma extensão do ser humano e suas necessidades básicas.
Não que você precise obter sucesso, ou até mesmo esteja devendo essa performance em sua vida sexual obtida através das janelas de seu carro. Mesmo porque, quantos casais você conhece que se conheceram no trânsito. E no trabalho? (Só por comparação, onde você deveria muito mais!)
E já que a paquera ao volante vai prosseguir (e o assunto pode voltar a qualquer hora), atenção para a sua maior armadilha: o que os bancos escondem.
Sim, quem se maravilha com uma janela aberta, enxergando cabeça, cabelos, rosto, pescoço, ombros, braços, peito e peitos, não pode adivinhar todo o resto, apesar de acreditar cegamente nisso. E estou falando de surpresas dos dois lados, homens e mulheres. Tanto sem preconceito quanto sem discriminação, pois cada um gosta do que lhe cabe. Estou falando exatamente da surpresa contrária, quando a abertura de sua boca em sorrisos francos durante todo o contato entre as janelas se transformar na grande abertura de seus olhos ao constatar o tamanho de sua contrariedade.
Por isso é regra: não se paquera em definitivo ninguém que esteja sentado. E isso vale para carros e cadeiras. Todos e todas. Estar em pé e do lado de fora equivale a trocar fotos por filmes. Quem conhece recursos de tratamento de imagens sabe sobre o que estou alertando. Tudo parece lindo, angulado e proporcional até se mexer. E pior, vai daí que mil vezes permitir seus sonhos, companhias e satisfações, ao vivo. E vivas! Do que em cromos, takes e tags.
E não é só estética, já que é fácil administrar barrigas e bundas, antes, durante e depois (sim, estão em permanente mutação), mas um pouco de atitude. Gestos, jeitos e trejeitos, longe do banco do motorista, são bem diferentes em postura, força e apresentação, portanto em significados. De pé, e se possível olho no olho, a comunicação fica bem mais direta. E aproveitando a carona, é também uma excelente maneira de tratar igualmente expectativas e respostas: do lado de fora, e nunca sentada!
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