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O paulista Ricardo Bassani já foi repórter e editor de diferentes veículos que lhe conferem experiência no segmento automotivo. Habilitado em jornalismo, teve cinco carros e duas motos. Desde 2005, só anda de bicicleta e observa o comportamento dos motoristas ao seu redor. Na coluna do Charme ao Volante, ele conta as aventuras e frustrações do cotidiano de quem passa grande parte do tempo dentro de um automóvel.
 
Em um minuto... Por Ricardo Bassani em 2008-11-13 09:58:17
Fotos de arquivo.
Final de semestre. Últimos detalhes de gravação do trabalho de encerramento, e quinze minutos para fechar as pastas com os CDs, colocar tudo no carro e dirigir até a faculdade.

19:45. O tempo exato de deixar a mesa, descer a escadaria do escritório, tomar fôlego, acomodar o trabalho no banco de trás, tirar o carro da garagem liberado do rodízio municipal às 20 horas e até sentir uma leve dor de estômago, lembrando que naquele dia não tinha nem almoçado.

Cinto de segurança, bolsa no banco do passageiro, carro na rua, faltam só três minutos para a liberação, tempo de sobra para chegar até o farol da avenida principal onde provavelmente estariam os fiscais de trânsito, ou marronzinhos. Duas esquinas para obedecer a mão de direção, e duas buzinadas tiram o carro da marcha lenta. O trânsito não quer gastar tempo.

Assim que alcança a avenida, um marronzinho se destaca bem do lado esquerdo. Nessa posição ele aproveita para multar carros em dois sentidos. Ela resolve ficar a direita, tentando esconder sua placa pouco mais atrás da fila que se forma no farol vermelho. Pára, bem encostada no carro da frente, encarando o marronzinho que começa a descer a rua com os olhos fixos em sua chapa e olhando no retrovisor enquanto aguarda que outro veículo esconda sua placa traseira.

Tarde demais. São 19:59, faltava um minuto. De costas, ele dá dois passos de volta para a esquina já escrevendo sobre o talão de multas. Podia não ser com ela, mas um forte barulho e um vulto escuro na sua lateral direita fazem espirrar pedaços de vidro em seus braços e no rosto. Susto, reação, paralização. Dois braços invadem a janela na direção da sua bolsa sobre o banco, junto com gritos, ordens e ameaças confusas.

Farol fechado, trânsito parado, calçada vazia, o assaltante sai correndo rua abaixo, na contramão. Assustada e confusa, ela puxa o freio de mão por causa das pernas moles e abre a porta para descer do carro quando ouve os gritos e uma buzinada fina de um moto que chegava correndo no espaço entre os carros. Do lado de fora, sacudindo a blusa na linha na cintura para fazer cair estilhaços de vidro, ela olha ao mesmo tempo para o ladrão correndo com sua bolsa de um lado e para o guarda ainda escrevendo no talão de multas de outro.

Farol aberto, carros acelerando e desviando, algumas buzinadas demoram a chamar a atenção do marronzinho que vê um veículo parado com a porta aberta e a motorista dele andando já bem próxima em sua direção. Conversam rapidamente.



“Um assaltante quebrou meu vidro, roubou minha bolsa e está correndo lá para esquina de baixo!”

“Você tá ferida?”

“Não sei, acho que não. Não estou vendo sangue!”

“Calma. Primeiro você precisa tirar seu carro da rua porquê o trânsito está ficando muito cheio.”

“Ele está sumindo lá embaixo! Você não vai fazer nada?”

“Você precisa chamar a polícia. Não é nossa função. Nós só cuidamos do trânsito. Nem andamos armados.” “Eu fui roubada parada no farol... ele está fugindo a pé...”

“Senhorita, posso lhe ajudar a chamar a polícia, mas não posso deixar esse local. E quero pedir-lhe mais uma vez para liberar o tráfego ou vou ter de multá-la novamente!”

“De novo porquê? Você estava me multando no rodízio por causa de um minuto para as oito da noite? Enquanto isso um cara estoura meu vidro, leva minha bolsa e eu ainda vou ter de pagar? Para você ficar aí me olhando? Não existe nenhuma tolerância de tempo? Cancele a multa?”

“Não posso. Além do mais esse farol tem câmeras que registraram a sua passagem. Se eu não multar, serei repreendido. E senhora, por favor, libere o fluxo da faixa retirando o seu carro da rua. Eu só posso isolar a área em caso de atendimento da emergência médica, e a senhora não está ferida.”

“Você queria que eu estivesse machucada para se mexer? Enquanto isso a câmera continua filmando? Não posso nem chamar a polícia porque o celular estava na bolsa. E ainda tenho de chegar a faculdade de qualquer jeito!”

“Senhora. Por favor retire o carro da rua. A senhora pode fazer um BO numa delegacia, mas por favor, libere o trânsito.”

Há doze quilômetros dali, na Faculdade, conforme o combinado, com o auditório lotado, a bancada de professores a postos, projetor instalado e cerimônias de abertura encerradas, o resto de seu grupo a aguarda desde as 19 horas para a apresentação final do trabalho de formatura: “Tributação, Multas e Tecnologia na Manutenção do Status Social”. Começa a chover forte.



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