Com o trófeu dos Sertões Uma descendente de japonesa com 1,55 metro de altura e menos de 50 quilos. A imagem de frágil não condiz com a realidade. Helena Deyama foi campeã brasileira de Rally Cross Country, em 2005, quando era a única mulher da competição. Ao longo das etapas, deixou os homens para trás e os fez comer poeira. A artista plástica e designer gráfico começou a correr profissionalmente há dez anos. Sua garra, determinação e paixão sempre contaram para seu sucesso nas competições. Mas outro detalhe também lhe ajudou muito: o fato de ser mulher. Até com uma presilha, ela já consertou um acelerador. Confira na entrevista abaixo esta e outras histórias.
Charme:Como você consegue participar de competições de rally cross-country e manter sua feminilidade, preocupando-se com unhas, cabelo e pele?
Helena Deyama: Você acha que eu não me preocupo? Eu uso a unha curtinha, mas sempre pintada com uma cor natural. O que não dá para fazer é usar a unha comprida e vermelha. O corte de cabelo que eu uso sempre foi curto e meio assimétrico, para que eu não precise ficar arrumando, porque quando você tira o capacete, em uma competição, está muito empoeirada e com o cabelo colado. Com ele curto, é só dar uma ajeitadinha. E lógico que tenho o meu kit feminino, que também tem lenço demaquilante. Eu saio do carro com a cara amassada de poeira, um horror, aí eu limpo tudo, passo um batonzinho e pronto. Ah, tem mais um segredinho: antes de entrar no carro, eu passo um creme leave-in no cabelo.
Charme: Como é a sua preparação física? O que você tem de fazer para agüentar correr um rally como os Sertões, de dez dias pelo interior do País?
H.D.: Meu preparo físico é constante. Há 10 anos eu faço academia. Como eu trabalho, faço no meu horário de almoço. Saio meio-dia, treino até as 13h30 ou 14 horas e, depois, tomo um banho e como um lanche saudável, uma saladinha. Volto para o trabalho e fico até mais tarde. E meu treino é forte, com natação, musculação, corrida, pedalada. Além disso, tenho o hábito alimentar bem saudável. Nunca comi carne vermelha, gosto muito de peixe e como verdura e produtos integrais, além de frutas, verduras, legumes, soja e tofu – que complementam a proteína.
Charme:Você não tinha nenhum familiar piloto nem nada que a estimulasse a se interessar pela área. Como você resolveu começar a correr?
H.D.: Sou formada em artes plásticas e tenho um estúdio de design gráfico, mas eu sempre gostei de aventura. Quando fiz 18 anos, trabalhei e comprei uma moto. Mas era moto de trilha, para correr na terra. Em 95, comprei um jipe e comecei a fazer umas trilhas. Participei de um rally só pra jipe e, logo no primeiro, já ganhei. Aí começou esta coisa da competitividade. De 95 a 98, o que eu fazia era por diversão mesmo. Mas, a partir de 99, comecei a correr profissionalmente, com patrocinador, compromisso.
Charme:Quais são os títulos mais importantes da sua carreira?
H.D.: Tenho vários títulos acumulados, mas o mais importante foi em 2005, quando fui campeã brasileira de Cross Country, sendo a única mulher da competição. Tinha piloto do Brasil inteiro. Em 2004, eu venci o Terra Brasil, quando fui a primeira mulher do Brasil a ganhar uma etapa de rally. Em 2001, fui vice-campeã dos Sertões na minha categoria e, em 2006, fui vice-campeã paulista também na minha categoria.
Charme:O fato de ser mulher já te ajudou em alguma competição? Você já pensou em soluções que homens não teriam provavelmente pensado?
H.D.: Uma vez, eu vi que o cabo do acelerador havia soltado. Eu estava correndo e, de repente, não estava mais. Eu consegui resolver isso muito rápido, sem perder muitas posições na etapa. Talvez um homem ficasse muito nervoso e não pensasse nisso. Eu tirei o cabo do acelerador, puxei pela janela, amarrei na gaiola para não cortar a mão (outra coisa que mulher pensa – em não se machucar) e daí eu fui acelerando na mão. Em outra vez, eu estava com o Fusca da minha irmã e também quebrou o acelerador e o carro travou. Eu tirei uma presilha do cabelo e travei o acelerador com ela. Nenhum homem teria pensado nisso. O carro ficou acelerado direto, eu tive de controlá-lo na embreagem e no freio, mas consegui chegar até uma oficina.
Charme:Como você consegue conciliar o rally com suas atividades de artista plástica e designer gráfico e com sua vida pessoal?
H.D.: Além disso, hoje eu ainda dou curso de pilotagem defensiva. Sou contratada pela BMW há cinco anos. A atividade automotiva tomou uma importância muito grande na minha vida. Eu acho que eu só consigo fazer tudo isso porque sou solteira. Se eu tivesse filho, seria humanamente impossível. Meus carros são meus filhos (eu tenho três).
Charme: E no trânsito, você também se comporta como uma piloto?
H.D.: Eu confesso que não ando devagar, mas sou super cuidadosa, nunca me envolvi em nenhum acidente no trânsito. Andar depressa não quer dizer andar perigosamente ou sem responsabilidade.
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