Mulheres no rali. É difícil encontrá-las, mas elas existem! Roberlena Moraes é uma delas. Essa arquiteta de 39 anos é navegadora do piloto e engenheiro Marcelo Carqueijo, seu marido. Começou a correr em 1995 e, por incrível que pareça, nunca havia se interessado por carros antes de se apaixonar pelo rali. Adora o que faz e chega até ao ponto de trabalhar enquanto navega. Vencedora de muitas competições de rali, incluindo uma com a piloto Mariana Becker, repórter do Esporte Espetacular da Globo, ela conta aqui um pouco de suas histórias.
Charme ao Volante: Como é ser uma mulher no meio de tantos homens e num esporte totalmente voltado para eles?
Roberlena Moraes: Hoje em dia, conquistei o respeito de todos eles. Uma vez, eu havia vencido uma prova e um competidor homem ficou indignado por ter perdido para uma mulher. Então, eu disse que se para poder correr e vencer tem que ser homem, que eles me considerassem um. Às vezes, eles realmente esquecem que sou uma mulher. Mandam-me trocar pneus, carregar coisas pesadas... Por mim, tudo bem! Até meu marido me vê como um homem quando estou navegando.
Charme: Você acha que os homens levam vantagem sobre você no rali?
RM: Eu acho que não. Uma vez, num dia com muita chuva e muita lama, nosso carro atolou. Tinham homens nos ajudando, mas eles começaram a ficar tão cansados que desistiram. Eu fui lá e consegui desatolar o carro. Homem é mais fraco. E tem mais, homem é muito afobado. Eu, como navegadora, fico muito atenta o tempo todo, inclusive para pedir para meu marido diminuir a velocidade ou não.
Charme: Correr junto com o seu marido te traz algum problema?
RM: Sou casada há 21 anos com o Marcelo. Quando nos casamos, compramos um jipe e logo começamos a nos interessar por rali. Mesmo fora das pistas, trabalhamos juntos, eu como arquiteta e ele como engenheiro. Então, estamos acostumados. Ser navegadora dele não atrapalha em nada no nosso relacionamento. É até bom porque discutimos e analisamos as provas mesmo em casa. Temos mais liberdade um com o outro, somos mais sinceros e diretos. Claro que nossas brigas profissionais acabam sendo mais intensas do que o comum, mas sabemos separar isso da nossa vida pessoal.
Charme: Como você se prepara para as competições?
RM: O preparo físico tem de ser constante. Pratico Pitales e adoro. Quanto à questão psicológica, não há muito que fazer. Eu, particularmente, só fico nervosa quando entro no carro. Nesses momentos, não consigo nem forçar ser simpática, fico com os “nervos à flor da pele”. No dia-a-dia, é razão sobre emoção. No rali, é emoção sobre razão. Sempre saio muito cansada das provas, porque tudo é muito intenso.
Charme: Como você faz para manter a vaidade mesmo numa corrida?
RM: Confesso esquecer dessas coisas quando estou navegando. É muito difícil dar atenção a esses detalhes no meio de tanto homem e de tanta euforia. Até porque, fico muito nervosa nessas horas. Mas, já fui vencida pela vaidade. Uma vez, o carro quebrou e meu marido foi levá-lo à oficina. Em vez de ir junto, fui correndo fazer a minha unha!
Charme: Por ser mulher, você teve dificuldades para conseguir patrocínio?
RM: Acredito que o fato de eu ser mulher me ajudou muito. É um diferencial. Há muitas que têm dificuldades, mas se a busca por patrocínio for focada principalmente em empresas com produtos voltados ao público feminino, as chances são bem maiores.
Charme: Em São Paulo, nas ruas, você é uma motorista agressiva?
RM: Na verdade, não gosto nada de dirigir em São Paulo. Morro de medo da violência, por isso sempre ando com o meu cachorro do lado. Faço de tudo para não parar em nenhum semáforo. Quando está tarde e vejo que não vem nenhum carro no cruzamento, passo mesmo se o farol estiver vermelho. Nunca bati o carro e tento fugir um pouco da direção na cidade.
Charme: Você é arquiteta. Como faz para conciliar o trabalho com as corridas?
RM: Deixar o trabalho para ir correr não é um grande problema para mim, também porque eu trabalho com o meu marido, mas mesmo assim é complicado. Eu sou arquiteta e ele engenheiro, ou seja, não podemos abandonar uma obra em andamento. Para que não haja nenhum dano ou perda, mesmo no carro, monitoro a empresa. Parece loucura navegar e ser arquiteta em um mesmo momento, mas faço o possível. É o único jeito de não me prejudicar em minha profissão.
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