Vivemos tempos difíceis para as gestantes, não apenas no Brasil como no mundo. As taxas de cesarianas crescem vertiginosamente. A desinformação em relação a esta fase da vida da mulher também é grande, em casa e na rua. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), no Brasil a taxa de cesarianas é de 80,72% na rede particular e não chega a 30% no Sistema Único de Saúde (SUS). A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que o número de cesarianas não ultrapasse os 15% do total de partos.
Em matérias publicadas pelo Charme , especialistas opinaram sobre as causas da situação. Foram citadas a desinformação das gestantes acerca dos benefícios do parto natural, despreparo do médico e até má-fé dos profissionais em alguns casos. Pelo baixo preço pago pelos convênios por partos, muitos médicos optam por realizar uma cirurgia, o que, segundo o diretor da Clínica Obstétrica do Hospital Universitário da USP, Paulo Bastos, acaba sendo mais cômodo de ser feito do que seguir todo o trabalho de parto normalmente.
E as mães nessa história? O que pensam dos partos normais e das cesáreas? Leia a seguir depoimento de duas mães.
Casa de Parto
A produtora audiovisual e educadora Francine Segawa teve sua primeira filha este ano, aos 28 anos. Ela é um exemplo de alguém que teve um parto natural tranquilo na Casa de Parto (CP) Sapopemba, zona leste de São Paulo. Ela tinha a opção de ir para um hospital, mas preferiu passar esse momento com a equipe do espaço público.
Charme: Como você ouviu falar da CP Sapopemba?
Francine: Uma amiga super a favor do parto natural me indicou a Casa porque eu estava sem plano de saúde e era uma boa opção de serviço público.
Charme: Como foi a escolha por lá em vez da maternidade convencional?
Francine: Eu fiz meu pré-natal no Hospital Universitário (da Universidade de São Paulo) e foi ótimo, mas quando assistia a vídeos de parto em hospitais e casas de parto sempre me interessava mais pela naturalidade e liberdade da casa de parto. Lembro que, no curso de gestante, vi um vídeo de parto no hospital e como em todos os hospitais tinha todos aqueles equipamentos e aquele vestuário verde, a mãe deitada, coberta até as pernas. Me parecia tudo muito controlado, uma situação em que a mãe fica muito "atada" com todo aquele aparato e toda aquela situação. Nos de casa de parto, eu via a mãe se movimentar, estar somente entre poucas pessoas, com um acompanhante para dar força e eu pensava: "Acho que quando eu estiver parindo eu não vou querer ficar deitadinha ali, com aquele monte de gente". O que me fez escolher a casa de parto foi o tipo de atendimento, que é muito acolhedor. E no dia que eu fui visitar a casa me encantei com o lugar - pequeno, com cara de casa, somente com mães e bebês, com a simpatia das enfermeiras. Me senti bem ali.
Charme: Como foi a reação da família ou entes próximos?
Francine: Contei somente para algumas pessoas. Para a maioria, eu dizia que meu pré-natal era no Hospital Universitário e eu teria o bebê ali. Somente meus irmãos, meu namorado, alguns amigos que gostavam da idéia e meu pai sabiam que eu iria mesmo para a Casa de Parto. Evitei discutir isso com quem eu sabia que era contra. Não queria ter que me defender. Tudo no mundo do parto gira muito mais em torno do medo do que da naturalidade, eu precisava defender o meu ponto de vista, o da minoria, para ter força para continuar. Era uma maneira de eu conseguir me manter com vontade e ter parto normal. E no fim, consegui o que queria, que era exatamente ter parto natural, felizmente.
Casa: A Casa pode acompanhar todo o processo?
Francine: O pré-natal eu fiz no HU, a CP Sapopemba não faz pré-natal, ela te acompanha no final da gestação e solicita que você continue o pós-natal onde estava indo.
A casa de parto faz o atendimento neo-natal do bebê, com teste de Apgar, exame do pezinho, medicação, vacinas. Como a Lis nasceu saudável foi feito tudo ali e não precisei ir a outro lugar. Ela teve um pouco de icterícia, mas foi resolvida com banho de sol e acompanhamento.
Você teve preparação para o parto?
Francine: Eu não tive uma "preparação para o parto". Eu estava trabalhando muito e terminando um mestrado e só consegui me liberar para pensar na gravidez, quarto para o bebê, chá de bebê, com 7 meses de gestação. Eu me mantive caminhando bastante, fiz hidroginástica, yoga, comia muito bem e dormia muito bem, me alongava, mas não fui a palestras sobre parto. O que eu acho que se revelou eficiente na hora do parto é que eu tive uma gestação sem problemas, tentei ir organizando meu pensamento para encarar aquele momento e eu participo de trabalhos que envolvem consciência corporal (dança, reorganização do movimento, yoga) há muitos anos. Então, consigo controlar a respiração e tenho uma organização corporal que me facilitou muito, porque eu sabia onde doía, eu sabia onde eu tinha que fazer força e como eu tinha que fazer.
Charme: E como foi o momento do parto? Você fez uso de anestesia, qual a posição?
Francine: Não fiz uso de anestesia e tive o bebê deitada de lado, eu segurava a perna quando ia fazer força (me ajudava, como uma alavanca, um ponto de apoio). Meu namorado, pai da minha filha, estava comigo. Os meus familiares só foram na visita depois do nascimento, atendendo a um pedido meu.
Charme: Foi feita a episiotomia (corte na vagina para facilitar a saída da criança):
Francine: Não foi necessário, eu tive algumas fissuras que pararam de doer no segundo dia depois do parto.
Charme: Qual sua impressão geral? Você teria outro filho em condições semelhante?
Francine: Eu fiquei muito feliz, muito satisfeita com tudo. As parteiras são acolhedoras, carinhosas, competentes. Eu teria outro filho assim, com certeza, na Casa de Parto de Sapopemba ou em casa.
E o pós parto?
Francine: Foi tranquilo, fui a uma consulta para passar de novo pela obstetra do pré-natal, não tive complicações.
Cesárea não planejada
A radialista e professora universitária Elisa Marconi tem dois filhos, o mais novo com três anos. Seus dois partos foram cesárea, apesar de isso não ter sido planejado.
Charme: Por quais tipos de parto seus filhos nasceram?
Elisa: Dos dois foi cesárea. Quando estava no fim da gestação da Luisa (mais velha), minha pressão começou subir, e o médico optou pela cesárea. A pressão vinha subindo desde a 28ª semana. Na 39ª, tive picos de pressão alta. O risco nesse caso é de pré-eclâmpsia, uma reação do corpo à alta pressão que ocasiona a expulsão do feto.
Quando fui ter o Daniel, fiz a gestação inteira no mesmo médico. Porém, ele não gostava da idéia de tentar fazer parto normal pós-cesárea e, como queria a gestação normal, mudei de médico, e encontrei uma que fazia partos naturais e humanizados sempre. Só que a partir da 30ª semana, a pressão começou a subir, eu me sentia muito mal, minha pressão chegou a 25 por 10. Na hora, tentamos indução [aplicação de substâncias, como a oxitocina, que provocam contrações e fazem o corpo começar o trabalho de parto], e a expectativa era que em 23 horas acontecesse. Deu muito resultado no começo, minha bolsa estourou e cheguei a 4 centímetros de dilatação, mas parou por aí. Então pedi pra ser cesárea.
Hoje em dia acho que fiz a opção certa.
Charme: Teria um terceiro filho?
Elisa: Se eu tivesse um outro filho seria completamente diferente. Como já conheço meu corpo sei como ele reage à gravidez. Marcaria cesárea com 38 semanas, com hora marcada, bem patricinha. Não porque é a melhor maneira, é a melhor maneira para mim.
Charme: O antigo médico se recusou a fazer o vaginal?
Elisa: Não é que ele não queria. Quando, no inicio da gravidez, comecei a conversar das chances de ter um parto normal, saquei que eram zero, pelas respostas que recebia. Não sou contra parto cesáreo, mas sou favorável ao normal. Achava que, como mulher e grávida, queria ter direito a pesar por algumas coisas na vida. Sentir a bolsa estourar, a contração...
Na minha primeira vez, eu fiquei chocada de ter que fazer cesárea, mas em nome do bem maior, não tinha nenhum problema.
Charme: Teve os filhos com o mesmo médico do pré-natal?
Elisa: Na primeira foi o mesmo, ele já era meu ginecologista e, no começo da segunda gestação, continuei indo lá, mas mudei de medico. Fui procurando informações na Internet de médicos que faziam partos naturais, de mães que já fizeram cesárea, e caí no GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), e fiz tudo por lá.
Há quatro anos, a quantidade de médicos e informação a respeito era muito menor. Os grupo de apoio eram mais raros. Hoje conheço um milhão de médicos que fazem parto normal depois de cesárea, mesmo não ligados ao GAMA.
Charme: Concorda com a linha humanizada?
Admiro profundamente o trabalho das pessoas que militam por essa causa. Acho que se não tiver gente que presta atenção nisso, vamos chegar a 100% de partos cesáreos no Brasil.
Uma crítica é que elas acham que todos os casos são iguais. Ou você é daquele time, ou não é. Elas querem resolver todos os casos da mesma maneira. Isso é muito grave. Eu tive um problema de saúde e o fato deu ter pedido pra médica que nunca faz cesárea pra fazê-lo foi visto como problemático.
Charme: E como foi a preparação pré-natal?
Elisa: No primeiro parto, absolutamente tradicional. Fiz mais ultra-sons do que o recomendado (3 vezes durante a gestação), ia uma vez por mês no consultório e, a partir do 8º mês, uma vez a cada 15 dias, depois uma vez por semana. Eu andava e fazia hidroginástica nessa época.
Da segunda vez eu fiz menos ultra-sons e yoga e hidroginástica.
Charme: E como foi a tentativa de parto humanizado em uma maternidade particular?
Eu estava na sala de parto com muita dor e me recomendaram alguns exercícios que poderiam me ajudar e realmente ajudou.
Quando eu fui para o quarto para dar a luz, no São Luiz, eu podia comer, isso era bacana. Só que quando você entra com um grupo dos naturebas no hospital, eles te tratam muito mal, e eu sei que era por causa disso. Então a comida demorava horas.
No primeiro parto eu fui muito bem tratada pelas enfermeiras do hospital. Cheguei às 6h e, às 10h, eu já tinha entrado no centro cirúrgico, foi rápido. Não acho que o parto seja esse momento que deva durar dias, é muito mais simples.
Charme: Fez uso de anestesia?
Elisa: Sempre quis tomar anestesia. Não abriria mão mesmo se fosse parto normal. Da primeira vez, tomei peridural e não tive nenhuma reação. Da segunda, tomei raquidiana e fiquei grogue, além de sentir mais dor.
Não tem nada romântico. Assim que tiraram o Daniel ele mamou no peito, e logo depois o meu marido deu banho nele na sala de parto. Nesse sentido, o parto humanizado é legal. O ar tava desligado, tinha música, escolhi o pediatra. O Daniel nasceu ao som da velha guarda da Portela. Foi legal eu ter pego ele logo que ele nasceu.
Charme: Como foi o pós-parto?
Elisa: Da primeira vez, foi super tranqüilo. Da segunda foi um caos, tive uma grande inflamação no corte, fiquei dois meses doente. Pouco tempo antes tinha passado por cirurgia nos seios e tive problemas pra amamentar. Tive uma mastite [inflamação na glândula mamária] severa e tomei todos os antibióticos do mundo.
Charme: A escolha pelo tipo de parto tem relação com a personalidade da pessoa?
Elisa: Sim. Tem a ver com a escolha da mulher pro momento. Acho que a reta final tem a ver com o bom médico que você escolheu. A mulher tem que ser muito respeitada, mas tem um limiar que cabe ao profissional de saúde fazer. Tenho visto muito isso, a cada amiga que tinha filho foi ficando mais claro:
existem dois tipos de gravidez. O dos bebês que querem nascer rápido, e os que o corpo das mulheres fica segurando por mais tempo.
Em última instância, as mulheres que se inserem no segundo caso, podem ter o parto dos sonhos e não ficar bem de saúde, nem emocional. Tenho certeza que mais vale uma mãe que esteja bem, mesmo que o parto não tenha sido o que ela idealizou. De um modo geral, os médicos brasileiros não são bons. São mal formados, não conseguem ver o limite entre o que dá e o que não dá para fazer.
Muitas mães não precisariam fazer cesáreas. Aqui, ou você é extremamente tradicional ou extremamente alternativo. Acredito que os que transitam nesse limiar é que são os bons médicos. É necessário que a formação seja mais humanizada.
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