Durante muito tempo acreditou-se que a episiotomia era um procedimento que auxiliava a mulher no momento do parto. Corte que abre a vagina normalmente em direção ao ânus, este procedimento aumenta a área de passagem do feto e diminui o tempo do parto. Mas especialistas divergem em relação aos benefícios do procedimento.
O Brasil é um dos poucos países que ainda fazem o corte rotineiramente. "Esse corte provoca danos sexuais importantes, dor intensa, freqüentemente complicações infecciosas e urinárias. Desde meados da década de 80, há evidência científica sólida indicando a abolição da episiotomia de rotina", afirma a ginecologista e professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) Simone Diniz em artigo publicado no site das Amigas do Parto. Ela acredita que cirurgias sexuais feitas em mulheres, muitas vezes, não respeitam a sua fisionomia.
No Reino Unido, por exemplo, tal cirurgia sem consentimento é considerada lesão corporal. E foi processando os médicos na década de 80 que as mulheres conseguiram uma queda abrupta do números de incisões. Aqui no Brasil, essa prática se encaixa como uma luva na conjuntura de pouca saúde para gestantes: um quadro de muitas cesáreas na rede particular e má qualidade de partos naturais na rede pública.
As principais alegações dos que defendem o corte no períneo (região muscular que fica entre a vagina e o ânus) são evitar flacidez vaginal, incontinência urinária (dificuldade de segurar o xixi) e bexiga caída, sintomas que são atribuídos à acidentes do parto natural. Simone afirma que se tratam apenas de mitos: a vagina alarga para o parto, mas depois volta ao normal. E as principais lesões da vulva quando se tem o parto normal estão ligadas a partos rápidos: quanto mais lento e sossegado, melhor para o bebê e para a fisionomia da mãe. Segundo ela, dificilmente haverá alguma lesão. Figura mostra procedimento
Francine Segawa, que deu à luz este ano em uma Casa de Parto não sofreu episiotomia. A lesão que ocorreu foram pequenas lacerações, bem mais seguras e fáceis de se tratar do que um corte cirúrgico - alguns são tão grandes que chegam até as nádegas, segundo cita a ginecologista em seu artigo.
O médico assistente do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU-USP) Tadashi Yoshivaki diz que só realiza o procedimento quando há necessidade, "se o períneo estiver bloqueando a passagem do feto. Há uma recomendação da clínica obstétrica em relação a pacientes na segunda gravidez – somos orientados a fazer, não é obrigatoriedade".
A mulher como objeto sexual
Simone lembra a questão cultural e de gênero ao qual a prática se relaciona. "O apelo da episiotomia para 'devolver a mulher à sua condição virginal', como proposto por alguns autores na década de 20, teve eco na cultura brasileira. A imagem que o discurso médico sugere é que, depois da passagem de um "falo" enorme - que seria o bebê - o pênis do parceiro seria proporcionalmente muito pequeno para estimular ou ser estimulado pela vagina". Dessa forma, a cirurgia manteria a vagina como órgão receptor do pênis.
Isso ilustra a teoria da vagina apertada ou frouxa. No entanto, a vagina e a vulva são órgãos ativos, capazes de se contrair e relaxar, de acordo com a vontade feminina, pois são músculos voluntários. (Fonte: Australian Broadcasting Company, 2002).
Não é com uma intervenção cirúrgica que seu corpo estará mais preparado para o sexo. Com exercícios físicos e percepção do seu próprio físico, é possível ter uma vagina forte que te proporcionará muito prazer. A episiotomia e outras invasões cirúrgicas nos órgãos sexuais são um risco a mais de você deformar sua vulva. “Somente com ação das usuárias é que o quadro tenderá a se reverter”, conclui Simone.
Siga o Charme ao Volante no Twitter.
|
|