Quem arrasta uma cadeira necessita de uma rua muito mais bem preparada que o resto dos pedestres - que já não tem ótimas condições. Calçadas em São Paulo são entradas de carros, raramente os pedestres são levados em consideração.
Caímos de paraquedas no mundo dos que arrastam uma cadeira de rodas.
Por
Lia Segre em
2009-10-02 14:39:21 Fotos
divulgação.
Passar o dia em uma cadeira de rodas. Era essa a idéia, o desafio. Não queríamos que a reportagem fosse mais uma sobre acessibilidade, no qual entrevista-se uma pessoa com dificuldades de mobilidade, como em todas as reportagens sobre o assunto. Queríamos ser essa pessoa. Por isso fomos, com olhos leigos e desacostumados, cair de paraquedas no mundo dos que arrastam uma cadeira de rodas. Arrastam, não se locomovem apenas, como nossa experiência nos mostrou.
Decidido isso, meu colega Lucas Hirata emprestou uma cadeira de rodas que fica encostada na faculdade. Nossa idéia era fazer o trajeto que ele faria em uma quarta feira, só que em cima da cadeira - ele normalmente se locomove de carro. No dia combinado, lá estávamos na rua de manhã, e um sentimento em comum antes de começar a filmagem, era que seria um dia muito difícil, para não dizer um pesadelo. Logo o estranhamento: porque a rotina de tantas pessoas nos trazia tal temor? Havia algo de errado, e nos primeiros passos sentimos quais seriam.
Nossas condições não eram ideais. Um cadeirante estaria mais acostumado a andar por aí, talvez teria até mais jeito e força no braço. Depois, se ele seguisse uma certa rotina, já saberia onde teriam elevadores no metrô, ou ainda rampas eletrônicas. Ficamos muito perdidos, talvez por isso gastamos tanto tempo para fazer um trajeto que Hirata faria em 40 minutos. Mas eram essas as condições possíveis para alguém de fora poderia passar.
Não é questão de chamar a atenção em todo lugar que vai. Essas pessoas são diferentes, são portadoras de necessidades especiais. "Não acho que seja ruim chamar mais atenção das pessoas, elas precisam ser mais bem cuidadas", acredita Lucas depois de passar pela experiência.
Cada calçada inclinada era um martírio, cada calçada sem rampa de acesso, uma pedra no caminho já fazia a diferença. Lixo também, sacos plásticos engancham nas rodas. Quem arrasta uma cadeira necessita de uma rua muito mais bem preparada que o resto dos pedestres - que já não tem ótimas condições. Calçadas em São Paulo são entradas de carros, raramente os pedestres são levados em consideração. Não apenas cadeirantes, também idosos, pessoas que usam bengalas, muletas, próteses... É como se só pudesse ter qualidade de vida sem ter carro quem fosse jovem e de boas condições físicas. Já que essa não é nossa realidade, esse descaso é criminoso e segregador.
As empresas de transporte público têm se virado para cumprir a acessibilidade, o que encontramos nos metrôs e ônibus foi aceitável. “Tratamento atencioso, todos me ajudaram, principalmente os motoristas de ônibus. A maior dificuldade foi encontrar a saída de cadeirantes na estação Consolação do metrô, poderia ser melhor sinalizado”, comentou Hirata. O motorista de ônibus que ajudou o repórter disse que eles recebem treinamento de psicólogos para atender pessoas com necessidades especiais.
Aliás, transporte público em São Paulo foi a parte mais tranquila do trajeto. Hirata concordou que as calçadas foram o principal problema. Fora da alçada da prefeitura, cada dono de imóvel faz a calçada conforme o resto do patrimônio. Na maior parte da cidade, são entradas de veículos, não local de passeio.
Governo
No dia 22 de setembro, a prefeitura realizou o seminário Passeios Públicos e Mobiliário Urbano na Cidade de São Paulo para reunir arquitetos, engenheiros, produtores de cimento e asfalto, representantes de diferentes setores do poder executivo, empresas concessionárias de serviços públicos (instalação de lixeiras, postes de eletricidade, telefones públicos, semáforos, floreiras, placas de trânsito e guias) e demais interessados no tema.
Um dos objetivos do encontro foi colher subsídios para que seja elaborado um “Plano de Ação sobre Acessibilidade e Mobilidade Urbana nos Percursos a Pé” para todas as pessoas, indistintamente, inclusive as com deficiência e mobilidade reduzida. O evento integrou as comemorações do Dia Nacional da Pessoa com Deficiência, festejado em 21 de setembro.
É preciso que a sociedade fique a par dos planejamentos da Prefeitura - não importa a cidade -, para que melhoras realmente aconteçam, e que as mudanças tenham a voz daqueles que usam de fato as vias. Calçadas precisam ser planejadas para pessoas também além de automóveis. É a vida de milhares de pessoas que hoje tem medo de sair às ruas, e que precisam ser inseridas na sociedade.