Pesquisa personalizada
 
Parto normal X hospitais

A gestante que busca os benefícios do parto natural tem dificuldades de encontrar opções para a hora do nascimento do bebê. Nas clínicas particulares, existe a epidemia de cesáreas. No SUS, a dificuldade é a superlotação.
 
Mulheres que buscam partos normais têm dificuldade em achar hospitais. Por Lia Segre em 2009-08-10 14:13:47
Fotos Ministério da Saúde/Divulgação.
A gestante que busca os benefícios do parto natural tem dificuldades de encontrar opções para a hora do nascimento do bebê. Nas clínicas particulares, existe a epidemia de cesáreas (80,72% em 2006), no Sistema Único de Saúde (SUS), as mulheres encontram a superlotação.

Além disso, a enfermeira-obstetra e doutoranda pela Universidade de São Paulo (USP), Flora Barbosa da Silva, afirma que "fora do SUS, nos convênios, não há clínicas particulares que fazem trabalho de parto natural". Há doze anos no serviço público, Flora acredita que falta controle sobre a atividade do médico obstetra pelos hospitais. Ela também critica a falta de atitude do governo: "Muitos hospitais têm uma boa estrutura para que um parto natural tranquilo ocorra. Porém, se médico fizer a cesárea, ninguém o questionará".

Segundo Ana Cristina Duarte, fundadora do Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (GAMA), existem três tipos de parto: a cesárea, o parto em que a mãe pode opinar, e aquele em que ela só obedece a ordens de terceiros. "Pode ter parto de cócoras, na banheira, na banqueta, de lado, com o marido. Um parto sem escolha é aquele em que ela apenas ouve tudo o que precisa fazer no momento, quando ela não interfere". Prova da dificuldade de escolha da mãe, segundo Ana Cristina, é que existem apenas quatro médicos na cidade de São Paulo que aceitam fazer o parto na água, uma das vertentes alternativas ao supino (deitada).

Casas de parto
Flora e Ana Cristina culpam parcialmente a classe médica pelos altos índices de cesariana e são favoráveis a medidas que ampliem o número de partos naturais, como as Casas de Parto Natural (CPN). Vinculadas às prefeituras locais ou a Ministério da Saúde, são sete unidades do Sudeste. Nestas casas, a assistência às grávidas está nas mãos de enfermeiras-obstetras e obstetrizes (similares a parteiras). Sem grandes intervenções no momento do parto, a idéia da casa é atender mulheres saudáveis durante todo o processo do pré-natal, realizar o parto e acompanhar mãe e bebê até dois meses depois do nascimento. Nestes locais, a gestação é encarada como uma questão fisiológica e não hospitalar. A participação da família também é estimulada.

Segundo trecho de tese de mestrado de 2006 feito por Màrcio Koiffman, "é fato que muitas mulheres e seus filhos necessitam do atendimento hospitalar durante o ciclo. No entanto, as evidências científicas vêm mostrando que os profissionais que atuam em Casas de Parto são capazes de selecionar aquelas mulheres que podem ser atendidas fora do hospital e atingir resultados similares em termos de segurança e ter experiências de parto positivas". O mestrado de Koiffman fala sobre remoções de mães e recém-nascidos da CPN de Sapopemba, em São Paulo, para hospitais próximos. A pesquisa revelou taxa de remoções e mortes neonatais baixas (um em cada mil nascidos vivos). Segundo Flora, que atualmente trabalha nesta CP, a taxa de remoção de mães é de 2,5 a 3% e, de recém-nascidos, de 1,5 a 2%. Ela também relata que nunca houve no local nenhuma morte materna desde a abertura, em 1998.

Para Ana Cristina, o fato de existirem maternidades com bons quartos e a dificuldade de se encontrar profissionais dispostos a ter o trabalho que o parto natural pressupõe mostra que o cenário atual é da falta de lugares humanizados, mas que existem profissionais humanizados. Ela explica que o parto pode ser simples e qualquer maternidade que tenha um quarto pode servir. “O que a mulher precisa é de privacidade, alguém que tenha paciência, feche a janela do quarto, a porta e, junto com a gestante, fica o marido e a parteira. Estará tudo certo".

Hospitais
Em contrapartida, o médico-obstetra Paulo Bastos de Albuquerque acredita que existe sim parto humanizado dentro de hospitais, e não apenas nas Casas de Parto e em trabalho com enfermeiras/obstetrizes: "Chego no hospital público, me apresento, informo sobre todas as questões, faço as intervenções necessárias [na gestante]. Não farei procedimento que não seja necenessário. Um médico ético, pensando na promoção da saúde e do bem-estar não pode realizar cirurgias sem razão", afirma Bastos.

Diretor da Clínica Obstétrica do Hospital Universitário (HU) da USP, o médico participou do primeiro parto realizado na instituição (1981), e hoje, depois de dez mil partos, afirma que há bem menos intervenções cirúrgicas. Grande defensor do parto natural, ele considera a cesárea uma medida extrema por ser uma cirurgia de alto risco. Quanto às Casas de Parto, ele as considera adequadas para locais ermos, mas não para grandes cidades. "Se algo acontece com a mãe, como uma hemorragia, é necessário um médico para fazer procedimentos que só ele está apto a realizar. Como estamos em São Paulo, temos toda condição de dar a assistência adequada [sem a necessidade das Casas de Parto]".

Em pesquisa realizada nas redes do SUS, o HU despontou como a segunda melhor maternidade do Estado, atrás do hospital universitário da Unicamp. São 90 partos cesáreos por mês, equivalente a 30% dos partos. Os outros 70% são naturais. Porém, o HU aparece como exceção entre a maioria dos hospitais públicos. Segundo Bastos, parte das gestantes vem da rede privada, muitas vezes porque os convênios privilegiam a intervenção cirúrgica.

Grau de dificuldade
Bastos explica que é mais complicado realizar o parto natural, pois o cesáreo tem procedimentos básicos. Ele mesmo, segundo conta, só se sentiu seguro para fazer partos naturais durante o período de residência. No fim da graduação, no entanto, antes da residência, já sabia realizar uma cesárea. "A grande causa para o grande número de cesáreas é o medico. Ele coloca problemas onde não existe, induzindo as pacientes a ficarem temerosas. E o segundo grande fator é desconhecimento sobre os fenômenos da parturição, ou seja, má formação".

Se o médico se negar a fazer parto natural, o ideal é trocar de profissional, ou fazer um parto natural com o médico de plantão, afirma Bastos. Ele também explica que os médicos não podem reclamar do baixo valor pelo parto pago pelos convênios, uma vez que eles não são obrigados a aceitar o convênio. Segundo ele, os médicos poderiam se unir para pressionar os convênios a pagar mais pelo trabalho de parto.

Siga o Charme ao Volante no Twitter.




Envie seu comentário

Nome:
Email:
Comentário:
 
Veja aqui outras
matérias
   
Indisponível.
 
Quem Somos  |  Equipe   |  Publicidade   |  Parcerias   |  Política de Privacidade e Termos de Uso | Assessoria de Imprensa  
Aviso Legal: O conteúdo deste site é disponibilizado e oferecido pela Norte Digital Entretenimento, em seu nome e por sua conta.  
© 2008 Norte Digital Entretenimento. Todos os direitos reservados - Resolução recomendada 1280 x 1024